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SÁBADO por C-Studio

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Água ou diamantes?

Água ou diamantes?

“O valor da água só se percebe depois de a fonte secar.” Um velho provérbio, que também pode ser uma verdadeira aula de Economia…

Dívida externa, spread bancário, yield, prime rate… o economês é, por vezes, indecifrável. Principalmente para quem não vive no mundo da alta finança, ou para quem nunca trabalhou na banca ou sequer estudou Economia. Ainda assim, há palavras, expressões e conceitos que, não sendo à primeira vista evidentes, fazem parte do nosso quotidiano e podem facilmente ser decifrados com simples analogias a acontecimentos corriqueiros do dia a dia.

Veja-se, por exemplo, o caso da expressão “marginal”, muito utilizada em economia, que pode ser explicada como significando “acréscimo”. Relacionada com a teoria do consumidor explica porque é que, em determinado momento, o consumidor opta por consumir dada quantidade de um produto.

O tema é antigo. Adam Smith, o pai da economia moderna, já tentava decifrar a questão da avaliação nas preferências humanas. Na sua obra mais famosa, A Riqueza das Nações (1776), Smith descrevia o problema recorrendo ao chamado “paradoxo da água e do diamante”. Por que motivo a água, essencial à vida humana, é tão barata, e o diamante, um bem supérfluo, é tão valioso? – perguntava sem resposta imediata.

Hoje a resposta parece-nos fácil. Damos menos valor à água porque existe em maior quantidade. Quando abrimos uma torneira em casa, temos água em abundância, mas diamantes…

Utilidade total versus utilidade marginal

Em economia, o conceito de utilidade pode definir-se pela satisfação que cada ser humano retira do uso de determinado bem face ao preço que esse bem custa. É o que dá valor às coisas.

Defensores da teoria do valor-trabalho (que defende que o preço de uma mercadoria deve reproduzir a quantidade de trabalho nela colocado), os economistas clássicos tinham dificuldade em lidar com o conceito de utilidade na formação dos preços. A verdade é que esse paradoxo da água e do diamante serve para ilustrar de forma muito simples a importância do conceito de utilidade marginal.

No século XIX, três economistas – William Stanley Jevons, Carl Menger e Leon Walras – descobriram quase em simultâneo que as decisões económicas são tomadas com base em benefícios marginais em vez de benefícios totais.

Por outras palavras, não se trata de as pessoas preferirem diamantes à água. Se estivermos a morrer de sede num deserto e nos derem a escolher entre uma garrafa de água e um anel de diamantes, é certo que vamos preferir a água. As pessoas reconhecem a importância e o valor da água para a vida humana. O que os economistas dizem é que as pessoas estão a escolher entre um diamante adicional versus uma unidade adicional de água. E este princípio é conhecido como utilidade marginal.

O que quer isto dizer? Que a utilidade total da água é muito maior do que a do diamante, mas a utilidade marginal do diamante é muito superior à da água, pois a água é normalmente mais abundante – ou seja, chega e sobra para satisfazer as nossas necessidades e pode ser obtida a baixo custo – do que os diamantes, muito raros, valiosos e por isso um objeto de desejo.

Confuso? Veja-se outro exemplo prático. Estamos com muita fome e alguém nos oferece um bolo. Quando comemos o primeiro bolo, é retirada uma determinada utilidade (saciar a fome); ao consumir o segundo bolo, a utilidade total aumenta, mas o incremento é inferior ao anterior (porque estamos com menos fome); quando aceitamos o terceiro bolo, supondo que ainda não se atingiu a saciedade, a utilidade volta a aumentar, mas o incremento volta a reduzir-se, e assim sucessivamente a ponto de já não conseguirmos olhar para o bolo.

Assim, enquanto não é atingida a saciedade, a utilidade marginal é sempre positiva. À medida que se consome mais, a utilidade de cada unidade desce, ou seja, o acréscimo de satisfação que o consumo vai dando desce quando o consumo sobe. Este acréscimo de utilidade cada vez menor é o que se chama de lei da utilidade marginal decrescente (ou primeira lei de Gossen, economista alemão a quem é atribuída a teoria da utilidade marginal).

E assim chegamos a um outro conceito que é a regra de ouro do consumidor (ou a segunda lei de Gossen), que diz que a utilidade marginal do último euro gasto em cada bem deve ser igual em todos os bens. Dá que pensar, não?